Esta série fotográfica nasce do ato simples de caminhar. Realizada entre as praças Santa Ana e Tirso de Molina, no centro histórico de Madrid, a obra observa as transformações silenciosas da paisagem urbana através dos fundos de obras e tapumes que temporariamente ocupam o espaço público.
Mais do que registrar intervenções arquitetônicas, as imagens investigam a condição transitória da cidade. Os elementos provisórios — cercas, lonas, estruturas metálicas, superfícies desgastadas e sinais de construção — convertem-se em composições visuais autônomas, revelando uma estética involuntária produzida pelo encontro entre planejamento, desgaste e acaso.
Ao deslocar o olhar para aquilo que normalmente permanece à margem da atenção cotidiana, a série propõe uma reflexão sobre os processos contínuos de construção e reconstrução que moldam a experiência urbana contemporânea. Os tapumes deixam de ser barreiras visuais para tornar-se superfícies de memória, abstração e expectativa.
Entre presenças e ausências, permanências e transformações, estas fotografias registram uma cidade em estado de suspensão. Madrid aparece não como cenário acabado, mas como organismo vivo, em constante mutação, onde o provisório também constitui uma forma de paisagem.
Madrid, primavera de 2025.

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